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Restrição gera compulsão?

Ao se pesquisar a palavra “dieta” no google, os resultados sugerem alimentos e cardápios que, ao total, são baixos em calorias. Infelizmente, atualmente, o ato de fazer dieta está atrelado a restrição alimentar, sem muitas vezes, respeitar a individualidade de cada um. São diversas as dietas da moda que restringem alimentos ou grupos alimentares e que, por consequência, podem ocasionar em exageros alimentares ou até, em casos mais graves, compulsão alimentar.

Essa ideia parte da chamada “teoria da restrição”, onde o exercício da restrição em relação aos alimentos causaria excessos na alimentação.

E para falar mais sobre isso, eu venho compartilhar de forma bem clara aqui a diferença entre compulsão alimentar e exagero alimentar, além de mostrar de forma mais aprofundada como o nosso organismo age quando submetido a restrição alimentar. Por fim, vou dar dicas das diversas estratégias que uso que são eficazes para se realizar quando o paciente se encontra ou relata essas situações.

 

Então, você sabe a diferença entre compulsão alimentar e exagero alimentar?

-> Compulsão alimentar:

Compulsão alimentar é uma doença séria que muitas vezes é banalizada. Ela é definida pelo National Institute of Mental Health como uma perda de controle sobre a alimentação.

Pelo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – DSM-V (American Psychiatric Association [APA], 2014) o transtorno de compulsão alimentar (TCAP) é uma doença psiquiátrica e um tipo de transtorno alimentar que se caracteriza por episódios de ingestão de alimentos em quantidades maiores do que o esperado em um espaço curto de tempo, acompanhados de uma sensação de falta de controle.

Nesses casos, é comum o paciente sentir culpa, vergonha, angústia e depressão.

Os episódios de compulsão por comida geralmente são marcados por uma ingestão muito rápida e uma quantidade excessiva. A pessoa só para de comer quando sente desconforto físico (como dor no estômago, ânsia de vômito e diarreia).

Além disso, estudos indicam que muitas vezes o transtorno de compulsão alimentar está ligado ao ato de beliscar e de insatisfação corporal. Durante as minhas consultas, sempre investigo o histórico alimentar do indivíduo, sendo esta uma forma eficaz de entender a sua relação com o alimento e também com o seu corpo.

-> Por isso, sempre recomendo analisar o recordatório alimentar, o tamanho das porções, bem como as restrições alimentares realizadas por desejo próprio do paciente, se há ou não um comer seletivo e prática de contagem de calorias/gorduras/carboidratos.O resultado desses fatores pode determinar uma relação disfuncional com o alimento e com o corpo, o que pode indicar a presença de um comer transtornado.

->Lembre-se que por ser uma questão psiquiátrica o cerne do problema precisa ser trabalhado, tanto com o próprio nutricionista quanto com um psicólogo/psiquiatra.

->Além disso, preste atenção ao contexto para verificar se seria um episódio de compulsão ou não: considere se a ingestão excessiva se dá por um transtorno ou por uma ocasião aceitável (como em festas, por exemplo onde costuma ter muita comida disponível).

 

*Exageros alimentares:

Os exageros alimentares geralmente estão ligados à fome emocional e ao ato impulsivo de agir sem desfrutar o momento da refeição e sem planejamento, além de muitas vezes o consumo alimentar ter o objetivo de aliviar ansiedade e angústias.

Diversos estudos comprovam que na maioria das vezes, os indivíduos comem em resposta a aflição psicológica e não aos sinais fisiológicos da fome.

Pessoas com descontrole na gestão das suas emoções e o excesso de sentimentos negativos são caracterizadas por um alto nível de dificuldade em regular as emoções, sendo definidos como comedores emocionais. Isto é explicado pela teoria psicossomática clássica em que os comedores emocionais não conseguem diferenciar a fome a partir dos sinais fisiológicos de estresse e de emoções negativas.

 

Tudo sobre restrição alimentar:

Não é melhor estratégia para a perda de peso!

Conceito: A restrição calórica (RC) refere-se à redução real das calorias consumidas para criar um déficit energético.

->As dietas restritivas trazem diversas consequências para o organismo, além de não serem sustentáveis a longo prazo. Lembre-se sempre: Ela não é a melhor estratégia para se manter o emagrecimento, uma vez que não muda o comportamento alimentar do indivíduo.

 

Porque ela tende a não funcionar a longo prazo?

As intervenções para perda de peso que se baseiam em restrições calóricas/dieta não apresentam sucesso a longo prazo. Estudos comprovam que os resultados de perda de peso através da restrição calórica costumam ser eficazes por apenas dois anos. É comum que o indivíduo retorne ao peso inicial em um período de 3-5 anos após a realização da restrição.

Essa premissa pode ser explicada pela grande quantidade de compensações alimentares que são feitas, já que restrições calóricas são normalmente seguidas por compulsões que acabam cancelando as restrições iniciais e, consequentemente, a perda de peso.

Uma das consequências da restrição alimentar é o efeito sanfona, no qual há reganho de peso perdido. Esse reganho possui enorme importância clínica visto que diversos estudos em humanos e ratos sugerem um aumento do risco de morbidades (como doenças cardiovasculares) e mortalidade, que podem ser associados às flutuações de peso ao longo da vida.

O problema é que a maioria dos estudos analisa apenas a perda de peso durante a restrição alimentar, mas não acompanha o indivíduo ao longo dos anos que sucedem o início da dieta, não obtendo, portanto, os dados do reganho posterior de peso [20].

->Como já sabemos, o tecido adiposo é metabolicamente ativo e é responsável pela produção de leptina, citocinas e adiponectina, o que demonstra as consequências metabólicas do reganho do mesmo após a prática de dietas.

Mas precisamos ressaltar que a restrição alimentar não está sempre ligada à compulsão alimentar, mas sim, em indivíduos mais suscetíveis a desenvolver a compulsão.

É plausível que a restrição alimentar possa ativar supostos fatores de vulnerabilidade que resultam em sintomas de transtorno alimentar em pessoas vulneráveis ​​a esse desenvolvimento. Uma possibilidade é a relação gene-ambiente, com a restrição alimentar possivelmente funcionando como um gatilho ambiental. Vários autores levantam a hipótese de que a compulsão alimentar pode ser um fenótipo comportamental que representa uma vulnerabilidade genética ou adquirida que pode ser ativada por fatores como alimentação restrita.

 

Fatores Psicológicos associados a restrição alimentar:

A perda de peso e a fome causadas pela restrição alimentar podem resultar em um aumento da preocupação em relação à comida, ao ato de comer e ao peso. O aumento da preocupação em relação a comida contribui para a formação de pensamentos dicotômicos que pode influenciar na autonomia da discriminação dos alimentos que são considerados bons e ruins. O indivíduo que faz dieta, não sendo prazerosa, acaba entrando em conflito com a comida necessitando, portanto, controlar os sinais de fome visto que pequenas porções dos “bons” alimentos não suprem suas necessidades.
Dessa forma, o controle que o indivíduo impõe sobre a sua cognição é muito rígido e, qualquer situação que perturbe o seu auto controle pode desencadear um excesso na quantidade de comida ingerida. Portanto, a autoimposição de controle cognitivo dos indivíduos que fazem dieta é o que pode gerar uma compulsão alimentar futuramente.

Assim, é fundamental estimular a autonomia alimentar dos pacientes, utilizando uma uma nutrição mais humana e menos prescritiva, valorizando o tratamento, muitas vezes, a parceria entre o profissional nutricionista e psicólogo.

Devemos respeitar o nosso corpo e nossas vontades, mas sempre com equilíbrio e mantendo hábitos de vida saudáveis como a qualidade do sono,atividades físicas regulares e gerenciamento do estresse.

Como nutricionista, eu utilizo diversas estratégias que são eficazes a fim de auxiliar os meus pacientes quando eles me relatam essas situações, dentre elas:

*Recuperar a confiança nos sinais do corpo
*Entender o relacionamento com a comida e o significado dos alimentos para si
*Reaprender a comer com tranquilidade Identificar gatilhos ambientais e emocionais que levam os indivíduos a comer em excesso
*Aprender a diferenciar fome física de fome emocional

Com tudo isso que escrevi, pergunto:

 

Restrição gera compulsão?

Não! Embora comer demais possa frequentemente acompanhar uma restrição dietética, a proposição central da teoria da restrição não é apoiada pelo balanço de evidências, desde ensaios epidemiológicos a de intervenção.
=TCAP envolve sentimentos de culpa, perda de controle, depressão (colocar foto em anexo 1)

= Para diagnosticar TCAP existem critérios diagnósticos e uma periodicidade de episódios (colocar foto em anexo 2)

= Compulsão alimentar não tem seletividade! Não existe compulsão apenas por doces, pizza ou qualquer que seja sua comida favorita. Durante um episódio de compulsão a pessoa come qualquer tipo de coisa comestível, seja calórico ou não, até que a comida acabe ou que passe mal. Quem tem compulsão não tem poder de escolha, não seleciona alimentos específicos.

= Ao dizer que “restrição gera compulsão” estamos afirmando frases prontas sem embasamento científico, pois estabelecemos uma relação de casualidade ,e participando deste princípio, todas as pessoas que experimentam algum tipo de privação alimentar, como alérgicos e intolerantes, desenvolveriam transtornos. E isso não é o que ocorre! A prevalência de TCAP é de 1,5% da população, apenas. Outro ponto é que diagnóstico de doença não é com nutricionista! Você ao afirmar isso está saindo da sua área de atuação…

= A etiologia do transtorno de compulsão não está totalmente elucidada, existem predisposições genéticas, culturais, psicológicas, vulnerabilidades biológicas. SÓ a dieta isoladamente não é suficiente para desencadear um transtorno alimentar. Isso envolve fatores de risco e demais eventos precipitantes.

Mas, não esqueça:
“Nem toda dieta resulta em transtorno alimentar, mas quase todo transtorno alimentar começa com uma dieta.”

E para quem deseja saber de forma mais aprofundada, sugiro a leitura na íntegra das seguintes referências:

 

 

Referências:

THE COMPLICATED Relationship between Dieting, Dietary Restraint, Caloric Restriction, and Eating Disorders: Is a Shift in Public Health Messaging Warranted?. Environmental research and public health, p. 1-2, 3 jan. 2022.

EFEITOS psicológicos e metabólicos da restrição alimentar no transtorno de compulsão alimentar. Nutrição Brasil, 2019.

COMER EMOCIONAL: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DE UMA VISÃO COMPORTAMENTAL. UNICEUB – EDUCAÇÃO SUPERIOR, 2020.

Pilar 1 - Bases Clínicas do Emagrecimento

Módulo 1: Evidências  Clínicas

Aula 1: O que importa no emagrecimento

Aula 2: Como reconhecer as evidências?

Aula 3: Medicamentos para perda de peso

Módulo 2:  Set point e Estagnação do peso

Aula 3: Por que engordamos?

Aula 5: Efeito Platô e bioquímica do emagrecimento 

Pilar 2 - Estratégias Nutricionais e suplementação no Emagrecimento

Módulo 1: Estratégias nutricionais nível A de evidência

Aula 1: Como escolher a estratégia clínica mais adequada?

Aula 2 - Crononutrição → Paulo Mendes

Aula 3 - Jejum intermitente → Gustavo Monnerat

Aula 4 - Dieta Cetogênica

Aula 5- Plant-based e emagrecimento

Módulo 2:  Fitoterapia e Suplementação 

Aula 1 - Antioxidantes e chás

Aula 2 : Prescrição de Fitoterápicos no Emagrecimento - Com Leandro Medeiros

Aula 3: Suplementação e modulação intestinal - Com Ana Faller

Pilar 3 - Exercício físico e mudança da composição corporal

Módulo 1: Exercício sob o olhar do educador físico

Aula 1: Comportamento sedentário e saúde- Bruno Smirmaul

Aula 2: Exercício físico para perda de gordura corporal-- Parte 1 - Diego Viana

Aula 3: Exercício físico para perda de gordura corporal-- Parte 2 - Diego Viana

Módulo 2: Estratégias nutricionais no exercício físico

Aula 1: Estratégias nutricionais para hipertrofia muscular

Aula 2: Carboidratos na síntese muscular e desempenho físico

Aula 3: Treino e recursos ergogênicos

Aula 4: Recovery no exercício - Com Leticia Penedo

Pilar 4 - Mudança de comportamento no Emagrecimento

Módulo 1: Habilidades de comunicação do nutricionista 

Aula 1: Como melhorar o seu relacionamento com o paciente

Aula 2: Você se comunica de forma efetiva?

Aula 3: Como integrar o aconselhamento nutricional na consulta?

Módulo 2: Nutrição comportamental na prática

Aula 1: Comer intuitivo

Aula 2:Comer Intuitivo na prática clínica

Aula 3: Comer com atenção plena

Aula 4: Técnicas da terapia cognitivo comportamental

Pilar 5 - Pilares da medicina do Estilo de Vida (MEV)

Módulo 1:  Sono e álcool

Aula 1 - O Autocuidado no emagrecimento

Aula 2 - Cuidado com o sono

Aula 3 - Sley Tanigawa

Aula 4 - Álcool e relacionamento - Com Daniela Telo

Módulo 2: Estresse 

Aula 1 - Mindfulness: como praticar?

Aula 2 - Como gerenciar o estresse?

Aula 3 - Práticas corpo e mente Mindfulness

Aula 4 - Ayurveda - Com Duda Witt

Pilar 6 - Prática Clínica Avançada

Módulo 1: Casos Clínicos reais de consultório

Aula 1: Emagrecimento e mudança de composição corporal- Com Flávia Sobreira

Aula 2: Emagrecimento e efeito platô- Com Débora Gapa

Aula 3: Dieta Cetogênica - Com Annie Bello

Módulo 2: Emagrecimento e comorbidades: como  intervir

Aula 1: Emagrecimento com o paciente com dislipidemia- Com Vanessa Montera curso de portas abertas

Aula 2: Emagrecimento e redução da Esteatose Hepática- Com Rafael Salles